Les jeux d’amour... (e meu saudosismo confesso)

“Il me dit des mots d'amour

Des mots de tous les jours,

Et ça me fait quelque chose”

                                   La vie en rose

 

Só pelas canções, já vale a pena (re)ver muitos clássicos. “Sabrina” é um deles, com Audrey Hepburn, William Holden e Humphrey Bogart na versão de 1954, dirigida por Billy Wilder. (Não vi a mais recente, de Sidney Pollack, fico devendo.) “La vie en rose”, a canção-tema, é linda e marcante, assim como “Moon River” também com Audrey, em “Bonequinha de Luxo”, ou “As time goes by” em “Casablanca”, numa lista que pode se esticar bastante. Não consigo lembrar de muitas canções marcantes em filmes mais recentes — muito menos usadas tão bem.

 

Eu podia falar da Audrey, a mulher que mais elegantemente já usou sapatilhas no mundo, desenhadas por Salvatore Ferragamo especialmente para combinar com os 1,75 m de altura da moça. Aliás, foi com “Sabrina” que as sapatilhas viraram sua marquinha pessoal no vestir. O figurino do filme é assinado por Hubert de Givenchy; ir ao cinema para esquecer as próprias mazelas vendo aqueles deslumbres de vestidos e histórias deliciosamente românticas me parece muito mais eficiente do que arrebentar o cartão de crédito no shopping.

 

Com Audrey, assisti “My Fair Lady” (me recuso a traduzir o título porque fica muito sem graça em português), “Bonequinha de Luxo” e “A Princesa e o Plebeu” (“Cinderela em Paris”, em que ela faz par com Fred Astaire, já está alugado; comentários a caminho). Nesses filmes, os personagens de Audrey têm em comum os contrastes derivados da riqueza e da pobreza, em especial relevância social versus anonimato e a elegância versus vulgaridade. A todos ela empresta estilo em doses cavalares, doçura e carisma imbatíveis; Audrey não é uma atriz impecável, mas foi usada no melhor de sua vocação nesses filmes.

 

Mas não quero falar da Audrey. Vi esses dias “Gilda”, com a Rita Hayworth, possivelmente em sua atuação mais célebre. Para mim, suficiente para justificar o mito. Aí entra de novo a questão da trilha sonora. Gilda cantando “Put the blame on Mame”, seja com voz e violão, da primeira vez, seja na cena em que, com um estonteante vestido preto, ela canta para provocar Johnny Farrell (Glen Ford), é arrasador. Rita tem um magnetismo poderoso, equivalente ao de Mame, da canção. Rita é dublada ao cantar; alguém se importa?

 

Voltando à “Sabrina”, o filme tem uma cena que entrou para minha seleção pessoal de cenas mais sexies do cinema. Quando Sabrina está dançando com Linus, personagem de Bogart (tinha que ser ele, né?!), a troca de olhares e o quase-beijo são de fazer céus e terra se fundirem.

 

Os finais de filmes hollywoodianos costumam me entediar, quando não me enfurecem. Mas de vez em quando começam tão bem, e seguram a onda tão bem, que eu perdôo os happy endings.

Qual é o tema de “Sonhos de um Sedutor”? Para começar, vamos ao título original: “Play it again, Sam”. Como todo mundo sabe, essa frase vem de “Casablanca”, da cena em que a Ilsa de Ingrid Bergman entra pela primeira vez no café de Rick — Humphrey Bogart está simplesmente arrasador. A frase em si nem é essa, Ingrid Bergman diz “Play it once, Sam. For old times' sake”. O pianista finge que não entendeu mas Ilsa não deixa saída: “Play it, Sam. Play ‘As Time Goes By’”. Fazer o quê? A fala que entrou pra história foi “Play it again, Sam”.

 

“Casablanca” era meu filme preferido, logo que comecei a gostar de cinema. Vi meia dúzia de bons filmes e hoje acho dificílimo escolher um. Mas Humphrey Bogart ainda é meu canalha do coração. Estou louca pra ver “Uma Aventura na Martinica”, pra ter uma idéia mais concreta do estrago que pode acontecer quando um Bogart e uma Bacall se cruzam pelos caminhos da vida (e nos sets de cinema). Woody Allen capta direitinho essa essência ao colocar o fantasma de Bogart como guru da sedução de mais um personagem neurótico e inseguro de Allen. Pra variar, funciona. Meninos, aprendam com quem entende das coisas. 

 

Mas eu falava do assunto de “Sonhos de um Sedutor”, que me parece ser a questão: é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? Ou ainda: como é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo? Triângulos amorosos não são novidade na arte, pelo contrário. Um dos temas mais batidos, em especial na literatura e no cinema. Mais raro ver música sobre isso (possivelmente porque se faz cinema e literatura também como expurgo da alma, coisa que eu acho mais complicada de fazer com música). 

 

Delicioso quando um filme não resvala no moralismo para tratar de uma coisa tão preciosa como o amor. Não é fácil, mas Woody Allen não é um moralista. A crítica (e a força) da culpa judaica é um tempero delicioso, sem o qual ele não encontraria tanta leveza para falar da ambigüidade das coisas que simplesmente acontecem. E o eixo central se desloca para como lidar com o que acontece. O que fazer quando se ama duas pessoas? E há também a discussão do que é lealdade — porque no triângulo de “Sonhos de um Sedutor”, além de tudo, tem a amizade entre os personagens no meio.

 

Um outro filme que vai fundo na questão (ok, podem rir se quiserem) é “As pontes de Madison”, em parte pelas atuações oceânicas de Meryll Streep e Clint Eastwood. Já li comentários desabonadores sobre o filme, que associaram a predileção de senhorinhas quarentonas (ou cinqüentonas) por ele graças à empatia em situações de vida semelhantes à dos protagonistas. Bullshit. O filme é grande, universal. Nos dois casos, o que está em questão é a ambigüidade dos sentimentos, não a culpa dos adúlteros. E as escolhas pessoais de cada um — aquele momento fatal em que ninguém mais pode escolher por você, em que você está totalmente nu diante de si próprio.

 

Diante de uma encruzilhada afetiva, as escolhas pessoais quase nunca acabam sendo as decisivas. Antes de ouvir o coração, e tão somente o coração, vem a família, a religião, a sociedade, a história, a cultura, os costumes, as conveniências. Entram na pendenga outras formas de amor, seja por filhos, amigos ou até amor-próprio. E até isso passa por modismos sociais. Nada mais démodé nesses nossos dias do que abrir mão da “felicidade e realização pessoal” em nome de casamento ou de filhos. Será que alguma opção é mais válida que a outra? Válida pra quem? E por quê?

 

“Sonhos de um Sedutor” tem uma opção clara, mas não impositiva (embora críticos de plantão possam retrucar que, no fim, o personagem de Allen se martiriza pelo bem-estar alheio. Eu não acho. Quem discordar que vá ver filmes do Adrian Lyne e que seja muito feliz). O roteiro é de Allen, com direção de Herbert Ross. Ainda não vi “Matchpoint”, em que parece, pelo que andei lendo por aí, que Allen ficou um bocadinho mais cético e mais cruel. Tomara que não.

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