Mudança: parte II

Momento de pânico: hora de remexer fitas e CDs.

 

Sou daquelas que acredita que a tela do computador não vai substituir o papel. Até pode substituir um dia, mas só quando inventarem um acessório que imite um livro praticamente à perfeição. Algo assim: uma tela pequena, portátil, que não brilhe como uma tela de televisão ou de computador, em que se vira a página em vez de rolar o texto, etc. E as bibliotecas pessoais ficariam armazenadas em HDs. Você simplesmente baixa os livros que quer ler no ônibus ou na cama, via wireless ou USB, e liga o “livro”, pequenino, portátil, tátil, e pode folhear, ler, sublinhar, acrescentar comentários (com uma caneta magnética que vem junto, “escreve” em várias cores e pode ser usada como marca-texto, etc). Perfeito, não? E o bichinho poderia ter, de quebra, uma placa para captar energia solar, como as calculadoras. Talvez baterias recarregáveis. Não é um Palm, ou um lapzinho, ou nada que o valha. É um livro digital mesmo, que simula o prazer quase carnal de ter os livros nas mãos, que quem gosta de ler não consegue dispensar.

 

Ou eu acabo de ter uma idéia genial que precisa ser urgentemente patenteada, ou é uma idéia tão estúpida e incapaz de funcionar que morreu antes de ser cogitadas a sério.

 

Tudo isso para chegar nas minhas fitas cassete e CDs, que foram trocados pelos MP3. CDs, nunca tive muitos. Quando eu comecei a  ter dinheiro para comprar minhas próprias coisas, CD já era muito caro, o Real tinha estabilizado e aquela impressão de que se tinha um absurdo de dinheiro na mão desmanchava. E a era das fitas estava acabando. Ainda peguei a rabeira daquele tempo em que as trocas de idéias e de música eram feitas pessoalmente, com fitinhas gravadas e capas feita à mão. Lados B, singles, coisas caras e importadas que a gente, do fã-clube, comprava em conjunto (essas eram as do Tears for Fears — sim, eu era do fã-clube do TFF, o In My Mind’s Eyes) e compartilhava pelas tais fitinhas. Ou ia um na casa do outro ouvir junto, o que era bem mais divertido.

 

E agora, cá estou eu, diante delas. Minha iniciação musical, toneladas de valor afetivo. A maioria gravada pelo André Gotz, que na época não assinava assim ainda. Smiths e Morrisey, Radiohead, Belle and Sebastian. Anos antes de estourar. O André sabe das coisas, não é à toa que se encheu daqui e foi morar tão longe. São Paulo ficou pequena mesmo para ele. Uma delas, que de um lado era coletânea dos Smiths e que do outro, tinha Morrisey, arrebentou de tanto que eu ouvia, estava um horror de gasta e eu não tinha coragem de jogar fora. Não ia conseguir comprar todos os CDs para ter as músicas da coletânea ao meu alcance.

 

Agora, já ouço todas elas no computador. Não nego que é melhor ter tudo mais fácil, longe um clique só. Mas não deixa de ter uma melancolia enorme em pensar em jogá-las fora. Assim como doar os CDs que estão encostados há séculos, porque nem aparelho de som eu tenho paciência de ligar mais.

 

Quando eu comecei a escrever esse texto, já tinha me despedido delas. Agora, não tenho mais tanta certeza do que fazer.

Mudança

No meio da bagunça da minha mudança, comecei a arrumar os livros que vão comigo. A sensação é a da salvar antes dos outros as pessoas mais preciosas para mim no meio de um naufrágio — junto com o alívio, invariavelmente um sentimento de culpa (reservado às telas, tintas e pincéis que nem sei quando vou empacotar). Tem uma pontinha de sentimento épico também. A cada livro salvo, é como se eu diminuísse a tragédia de um pequeno holocausto do conhecimento.

 

Para quem achar que estou fazendo um drama da situação, explico: recebi a ordem de me livrar deles. De tantos quantos fossem possível. De uma casa vou para um apartamento. E essa arrumação me faz passar os olhos nas capas de livros lidos com carinho, e me dou conta ao mesmo tempo de quanta coisa interessante e útil ainda tenho para ler em casa.

 

Passei no quarto dos meus irmãos para ver se nas estantes deles havia alguma coisa que valesse a pena salvar também (tenho certeza que eles não vão sofrer para decidir o que vai e o que fica). E acabei achando uma porção de livros infantis que não queria que fossem abandonados. Ivan Lessa, com as “Memórias de um Vira-Lata” e “Memórias de um Cabo de Vassoura” foram salvos, no meio de outros que me acompanharam na infância. Meu irmão mais novo tem livros que não li, e que nem sei se valem a pena guardar. Essa decisão caberá ao afeto dele.

 

A grande razão de guardar esses livros de criança e não doá-los para uma biblioteca ou para a molecada da vizinhança é que eles são um sonho. Não me acho maternal, longe disso. Mas me peguei imaginando-me com meu filho no colo, ou ao meu lado, lendo histórias e poeminhas para ele. E mais tarde, cada um lendo no seu cantinho, esse hábito de plantar sementes na cabeça e regá-las todo dia um pouquinho sendo cultivado junto. Plantar no coração de um filho a capacidade de sonhar, de amar, de sentir.

 

Não sei se terei um filho. Se Deus me der um dia esse presente, quero a ele dar também o presente de poder ter vários mundos. Não só o mundo do computador, da televisão e do vídeo-game, mas também o mundo das letras e das tintas, da música e das corridas na rua. O mundo de esconde-esconde e de faroeste com pistolas e cavalos de brinquedo, de pisar em terra e grama.

 

Não são os livros que estão em jogo. É a possibilidade de que uma criança daqui a alguns anos possa escolher uma vida menos fragmentada e alucinante. Não é negar o que a vida urbana — seu ritmo, sua tecnologia, seus assuntos — se tornou, mas é lembrar que não é o único jeito de viver. Muito menos ignorar o futuro, mas aprender a viver com o passado. Não é diminuir um pequeno mundo, mas permitir que meu filho escolha deixá-lo maior.

 

Será que esse começo, de livros ao pé da cama, dará conta de tantos sonhos?

[ ver mensagens anteriores ]