Morangos Silvestres - para começar a gostar de Bergman

            Morangos Silvestres (Smultronstället, de 1957) pode não ser a obra-prima de Ingmar Begman, mas é certamente uma das grandes-obras primas do cinema. Isak Borg é um médico interpretado por Victor Sjöström, que, depois de uma vida inteira no exercício da profissão, está a um dia de receber o título de doutor Honoris Causa na Universidade de Lund.

Sentado na escrivaninha de seu escritório, seu cotidiano se desenrola enquanto a voz grave narra como o médico vê a si mesmo: organizado, aficionado ao trabalho. Vive sozinho; apenas a criada rabugenta, há muitos anos trabalhando para ele, lhe faz companhia. Há também um cachorro. Isak é viúvo, e o filho, já casado, mora em outra cidade.

No dia de receber seu prêmio, parte para Lund acompanhado da nora Marianne (Ingrid Thulin), que se desentendeu com o marido Evald (Gunnasr Björnstrand). O caminho é não apenas um retorno à cidade onde Isak havia estudado e iniciado sua carreira, mas também um choque frontal com os principais eventos do passado que o magoaram na vida, e um repasso da falta de amor que Isak acumulou por anos.

            Bergman conduz o espectador a um caminho que qualquer um acaba tendo que trilhar em algum momento. Confronto após confronto, Isak encara a si próprio. Em ácida conversa com Marianne, na primeira parte do caminho, ela o acusa de ser um velho egoísta, incapaz de se preocupar verdadeiramente com alguém. Ele discorda vagamente, surpreso com as acusações. Tenta contar para ela o estranho sonho que tivera. O onírico de Bergman é magistral: Isak está perdido numa parte desconhecida e deserta da cidade onde mora e surge uma carruagem fúnebre, sem cocheiros. Andando a esmo, o trote dos cavalos acaba por derrubar o caixão, onde, aterrorizado, Isak descobre o próprio corpo. Marianne o acusa de egoísmo, mas não quer ouvir o sonho e o priva do alívio de um desabafo.

            Isak decide parar na velha propriedade da família, onde seus tios e primos passavam os verões na infância. Surge mais um dos flaskbacks que pontilham a história — talvez o mais importante — à vista do canteiro de morangos silvestres. Foi lá que Isak perdeu o amor de sua vida, a prima Sara. O canteiro de morangos é o mesmo, mas estão lá o irmão e a então noiva de Isak, Sara. O casal está se beijando. Isak é interrompido pela voz de uma menina, e volta do devaneio. Uma garota está sentada ao seu lado. Chama-se Sara (Bibi Andersson ) e parece com a prima que Isak amou, provocando nele uma melancolia ainda mais profunda. Sara — a do plano presente — pede uma carona, e junto com um amigo e o noivo seguem com o médico e Marianne. O grupo é cheio de energia, jovem, intelectualizado, e contrasta imensamente com o silêncio de Marianne e a reticência bem-humorada de Isak.

            Um encontro forçado ocorre quando um carro desgovernado vem pelo sentido contrário da estrada, e quase causa um acidente. Um casal em crise brigava no volante, e Isak oferece carona até a próxima cidade. Os dois resolvem acertar as contas e Marianne pede que saiam do carro quando a discussão se torna cética, amarga e agressiva. O cineasta sueco passa por várias nuances do amor (ou da falta dele) em cada casal. A paixão indecisa e irresponsável da Sara do presente, a rejeição de Sara por Isak jovem, o casamento sem paixão de Isak, a reconciliação final de Marianne e Evald. Periclitante, o amor mina todas as relações que poderiam ter sido e não foram. Talvez causando mais amargura do que as outras, a mãe de Isak, numa visita que ele faz a caminho de Lund, fiz que sente o útero frio. É desse útero frio que saiu Isak, para uma vida fria e estéril.

A falta de amor é tema que Bergman percorre em vários de seus filmes. Em Morangos Silvestres três planos se fundem: a história, o sonho e o devaneio, que por vezes é quase um delírio. O cinema nórdico, conhecido também como “cinema de rosto”,  é explorado em tomadas que captam toda a expressividade de um elenco extremamente talentoso. A tradição desse cinema é antiga no cinema sueco, e a estabilidade econômica e a sociedade avançada de Bergman permitiram mais liberdade para a criação de filmes com um tom existencialista tão profundo. A importância dos personagens é a da representação de situações complexas e às vezes paradoxais que o homem moderno enfrenta. A contraposição de Lund, cidade do interior, com Estocolmo, onde Isak construiu sua carreira, é um símbolo da dissolução de relações. A geração da juventude de Isak era unida, os pais tinham muitos filhos. Isak não tem netos e vive em solidão. Como os outros personagens, em isolamento ou discórdia.

[ ver mensagens anteriores ]