Temática da pobreza atrai milhões de brasileiros ao cinema e segue gerando controvérsias
Uma casa de detenção em São Paulo, uma pensão decadente no Recife, um trajeto inóspito da ferrovia Central do Brasil, um conjunto habitacional mineiro que se degradou em favela. Os cenários de Carandiru, Amarelo Manga, Central do Brasil e Cidade de Deus já dão a entender: sim, vai-se falar de pobreza. Essa safra surpreende pela excelente bilheteria, embora o tema não seja recente no cinema nacional. “Não vejo novidade no uso do assunto, talvez apenas na forma da abordagem e na receptividade do público”, diz o jornalista e crítico de cinema Sérgio Rizzo, da Folha de S.Paulo.
Em 1965, Glauber Rocha já propunha uma forma contundente e mobilizante de se mostrar a pobreza. “Sabemos nós — que fizemos estes filmes feios e tristes, estes filmes gritados e desesperados onde nem sempre a razão falou mais alto, — que a fome não era curada pelos planejamentos de gabinete e que os remendos do tecnicolor não escondem, mais agravam os seus tumores”, sentenciava o cineasta no manifesto Uma Estética da Fome. Esse modo de fazer filmes marcou produções como Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos, Cinco Vezes Favela, de Ruy Guerra, e Deus e o Diabo na Terra do Sol, do próprio Glauber.
Nova roupagem
Apesar da continuidade temática, a pesquisadora Ivana Bentes afirma que, na atual produção do cinema brasileiro, pautada especialmente pela miséria, houve uma mudança conceitual. “Passamos da ‘estética’ à ‘cosmética’ da fome, da idéia na cabeça e da câmera na mão (um corpo-a-corpo com o real) ao steadcam, a câmera que surfa sobre a realidade, signo de um discurso que valoriza o ‘belo’ e a ‘qualidade’ da imagem, ou ainda, o domínio da técnica e da narrativa clássicas”, defende ela no artigo Quando o Árido Fica Romântico.
Marcelo Coelho, jornalista e articulista da Folha de São Paulo, discorda: “Do ponto de vista moral, há tanto ‘gozo’ com a miséria alheia num filme dos anos 60 quanto num filme de 2000. E há tanta denúncia num como em outro. ‘Cosmética’ seria para fingir, para disfarçar a miséria. Onde há fingimento ou disfarce em Cidade de Deus?”.
Quem tem opinião semelhante é Celso Sabadim. “O cinema é um espelho da nossa realidade. Se a sociedade está muito violenta, é natural que o cinema reflita isso. Não acredito na espetacularização da miséria e da violência”, diz o crítico de cinema da Rede Bandeirantes. Sabadim também acredita que, para uma produção vingar em termos comerciais, “o segredo é fazer bem-feito”.
Até quando?
Velha ou nova, a exploração temática da pobreza ainda gera controvérsias. Para Ana Paula Sousa, jornalista da CartaCapital, há “oportunismo”, uma vez que “muitas produções são bancadas em função da necessidade pessoal de alguns diretores”. Na opinião dela, essa tendência deve continuar. “Mas porque tem dado certo, e não porque seja um processo reflexivo sobre o cinema nacional”, acrescenta.
Já Jefferson Del Rios considera que a expressão “cosmética da fome” é “um ataque pesado aos cineastas”. O jornalista e crítico da Bravo diz não acreditar que o cinema esteja vivendo “uma tendência passageira, e menos ainda moda. Seria horrível ‘uma moda’ de se falar de sofrimento humano”.
O título não é o que parece. Em francês, a palavra bordel quer dizer, além de seu sentido literal, confusão, bagunça. E é a palavra que Xavier, personagem principal de Albergue Espanhol, do diretor francês Cédric Klapisch, mais usa para definir sua vida e o apartamento que divide com estudantes europeus de vários países. Não só da bagunça visual, mas lingüística. Não só bordel, mas babel.
Barcelona é uma cidade culturalmente agitada e aberta ao diferente — não por acaso é cenário de Albergue Espanhol. A variedade de cores, formatos, personalidades e idiomas combina com um dos maiores orgulhos da Catalunha: as casas construídas por Gaudí, arquiteto que inventou uma harmonia única, feita com o caos e a desordem.
O francês Xavier (Romain Duris, em seu quarto filme com Klapisch), recém-formado em economia, parte à Espanha para fazer uma especialização na Universidade de Barcelona. A viagem começa com expectativas: um amigo do pai de Xavier prometeu um emprego na Comissão Européia caso se especializasse em economia espanhola e aprendesse o idioma; Xavier passaria uns tempos livre da mãe, uma hippie tagarela e obcecada por comida natural, além da chance de simplesmente mudar de ares.
Apesar dos percalços para se adaptar a uma nova língua, encontrar um lugar para instalar-se, ter deixado na França a namorada Martine (Audrey Tatou, protagonista de O fabuloso destino de Amélie Poulin) e da nostalgia de ter trocado uma rotina tranqüila pelo desconhecido, Xavier encontra um grupo de estudantes de vários países para dividir um apartamento, no qual se sente mais em casa do que na própria casa. E que grupo! Uma inglesa, um italiano, uma espanhola, um alemão, uma belga, um francês e um dinamarquês. Todos de países membros da União Européia — países economicamente estáveis e guardando, por assim dizer, uma certa distância dos primos pobres, como Grécia ou Irlanda.
Apesar da saudade que sente por Martine, Xavier acaba se envolvendo com a também francesa Anne Sophie (Judith Godrèche), esposa de um médico que trabalha em Barcelona. Aliás, ninguém parece estar à vontade com seu antigo par, de seu país de origem. A inglesa Wendy, apesar de ter um namorado do outro lado do canal da Mancha, se envolve com um americano; a belga Isabelle tem um flerte com uma professora de flamenco espanhola e acaba brigando com sua namorada, que veio da Bélgica visitá-la.
Os pequenos conflitos no dia a dia dos estudantes também deixam à mostra que se o melting pot cultural é uma festa, tem também seus contratempos. Na divisa com a França, no sudoeste da Espanha, se fala o catalão, idioma oficial da terra de Salvador Dalí, e que lembra um misto entre o francês e o castelhano. É nessa língua em que as aulas da pós-graduação de Xavier são ministradas, e apesar do Erasmus (programa de intercâmbio acadêmico) incentivar a vinda de estrangeiros, a troca de farpas é inevitável. O professor catalão se recusa a usar o castelhano para continuar dissertando sobre a globalização — paciência. Resta aprender um pouco melhor a língua materna de Joan Miró.
Sem generalizar, o filme brinca com alguns estereótipos, como a batida diplomacia francesa. Klapisch perguntou aos outros atores como eram os franceses, e a partir das respostas, boa parte da personalidade de Xavier foi formada. O roteiro foi escrito em 12 dias, e parte dos diálogos e personagens foram feitos junto com os atores. O quarto que Tobias e Alessandro dividem é uma metáfora visual da disciplina alemã e da displicência italiana, embora seja melhor não comentar nada em voz alta... A mágica do cinema é essa: apesar de alguns diálogos do filme não deixarem dúvidas de que falamos da dificuldade que é a convivência quando há diferenças, Klapisch contou bem uma história usando a imagem, lançando um olhar ao mesmo tempo estrangeiro e poético sobre Barcelona.
Aconteceu naquela noite, embora não seja excepcional, é delicioso de assistir. O filme de Frank Capra lembra um pouco a história de A princesa e o plebeu, embora a Audrey Hepburn esteja mais bonita do que Claudette Colbert.
Ellen Andrews é a filha de um magnata, e se casa com King Westley, contra a vontade do pai. Consegue escapar do barco onde está presa e compra uma passagem de ônibus para Nova Iorque. Se vencer os 1.600 quilômetros que a separam do marido, poderá ter controle sobre a própria vida, longe das exigências da refinada família. Porém, a mala com seu dinheiro e pertences é roubada. Adivinhe quem socorre Ellen? Um jornalista, que a ajuda em sua fuga enquanto pensa na melhor maneira de aproveitar o furo que veio parar em suas mãos.
Ellen é mimada, chata e irritante. Embora seja ingênua e não tenha muita experiência, é inteligente e tem sempre uma resposta (às vezes precipitada) na ponta da língua. Porsonagem feita sob medida para Peter Warne (Clark Gable), um jornalista talentoso e canastrão, recém demitido por telefone, depois de perder uma matéria numa bebedeira.
O filme escorrega em alguns clichês, mas há cenas originais e impagáveis, como aquela em que Peter “ensina” à Ellen a arte de pedir caronas... Foi a primeira produção a ser premiada com o Oscar “grand slam”: melhor ator, atriz, diretor, fotografia e roteiro adaptado. As atuações do filme têm uma das qualidades que mais prezo numa comédia: timing. Claudette não é uma atriz sensual — o figurino de 1934 não ajudava nesse quesito —, mas química em cena rende momentos divertidos e naturais, como o das rosquinhas, ou quando Clark explica que cada homem se despe de um jeito diferente.
O relacionamento forçado entre os dois — da parte dela, por depender da ajuda de um estranho, e dele, por precisar de um furo de reportagem — cria uma tensão que se rompe na tela quando ambos começam a apreciar a companhia um do outro, embora não admitam. A fotografia do filme, quando o par é obrigado a dormir no relento, parece ser a ilustração de uma fábula, como se um encantamento pairasse sobre eles. As árvores cintilam, a luz é feérica.
Como disse o cineasta Wim Wenders no documentário Janela da Alma, um bom filme deixa espaço para ler nas entrelinhas. E esse filme tem a virtude de não banalizar o olhar com excessos, e ter muito a dizer numa troca de olhares, no pijama ou vestido de casamento que Ellen usa, no fino cobertor que serve de divisória improvisada quando o casal de desconhecidos se vê obrigado a dividir um quarto.
Em quarenta anos, o cineasta Frank Capra dirigiu 53 filmes, e foi premiado pela academia como melhor diretor por Aconteceu naquela noite (1934) e O galante Mr. Deeds (1936). O sucesso do filme foi imprevisto, já que atrizes como Constance Bennett e Myrna Loy recusaram o roteiro. Claudette Colbert só o aceitou porque Capra prometeu que dobraria seu salário e ela estaria livre das filmagens em quatro semanas. Ela deu tão pouca importância para o filme que quando recebeu o Oscar de melhor atriz, estava em trajes de viagem, já que nem pretendia ir à cerimônia. Já Clark Gable tinha um contrato assinado com a MGM, mas estava emprestado “de castigo” para a Columbia, de pouco prestígio na época.
No princípio era a crítica de teatro. Depois fez-se luz, câmeras e ação. Comecei a gostar de cinema, e ainda não abandonei a idéia de um dia ser crítica de teatro, ou quem sabe de arte, dependendo de onde o vento me levar. O grande problema é que, sendo desmemoriada, às vezes fico perdida, misturando histórias, fotografias, nomes de atores e personagens, confundindo diretores, principalmente quando vejo mais de dois filmes por dia. A confusão parece exagerada, quase absurda, mas não é: minha história de amor é dupla e tem pouco mais de quatro meses.
Resolvi fazer um blog, para escrever sobre os filmes que vejo e manter uma espécie de diário das minhas relações com a arte. Sabendo da minha preguiça, nem me proponho a escrever sobre todas elas, do graffite que me chamou a atenção no muro a Mostra BR de Cinema. Por enquanto, vou tentar ser assídua aos filmes, pelo menos. Que as musas me inspirem!
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